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E daí que eu levava uma vida toda cor de rosa, cercada pelo amor familiar e pelo amor amigo. Como uma princesa de contos de fada, mesmo nos momentos em que eu tive de experimentar uma ou duas vicissitudes, nunca me faltou socorro, proteção, auxilio; e aqui penso que é desnecessário esclarecer que eles não vieram em forma de lâmpada mágica, nem de varinha de condão; mas chegaram através de um colo, de uma palavra dita na hora precisa, de presenças que me ajudaram a sair quase que intacta de todas as experiências dolorosas, que de alguma forma e por algum motivo me eram necessárias. Enfim... Eu levava uma vida - comparada à da maioria das pessoas - feliz, e até me julgava relativamente assim, mesmo sentindo no coração um vazio que nada naquele meu mundo "encantado" conseguia preencher. A verdade é que mesmo com esse sinal - o tal vazio, digo - eu não percebia que algo estava errado, e acho que também por causa disso a Vida teve de me conduzir para que eu mesma enxergasse: o rosa que me cercava por todos os lados não era o do céu no entardecer, nem mesmo o reflexo das flores do jardim; o rosa que me encantava e que me dava a sensação de tranquilidade, paz e proteção, podia até ser bonito e ter o seu encanto, mas não me era saudável; e hoje posso dizer isso porque terminei por perceber que ele nada mais era que a cor das muralhas que limitavam a minha vida, o meu mundo. Deus, por muitos anos eu estive presa, e pior, eu me mantive nessa condição.
Hoje as coisas mudaram. Uma transformação lenta, mas constante, e o blog foi o primeiro reflexo dela - quem o acompanha desde o início já deve estar cansado de me ler escrevendo sobre isso. Hoje eu me percebo e, principalmente, eu me sinto muito mais livre, mais leve, mais solta; eu vejo que consegui, sim, vencer muitos dos meus fantasmas, romper a maioria dos limites que só me travavam a existência; e o que posso dizer até aqui é que não há nada melhor do que sentir essa liberdade, esse poder ser o que quero, me permitir sentir o que simplesmente nasce no meu coração. Mas, mesmo inebriada pelo pulsar da liberdade, eu sei que ainda tenho de vencer muitas outras coisas dentro de mim. O fato é que se eu consegui ultrapassar as fronteiras do meu mundinho cor de rosa, me é inevitável agora e humanamente impossível não temer o desconhecido que a imensidão do "mundo real" traz. É que se as paredes do meu "castelo" me aprisionavam, elas também me protegiam, e não tê-las em determinadas situações me assusta, ainda que por um breve momento. Mas eu entendo que é esse o processo, e não me condeno por ele; pelo contrário, me permito o acelerar do coração, o gelar das mãos e mesmo o ímpeto de correr, fugir, me esconder; mas, como as aguas que correm em direção ao mar, eu deixo todos esses sentimentos simplesmente fluírem, passarem, porque hoje eu sei que sou mais que eles - sentimentos - e mais forte que elas - águas. Hoje eu sei que sou dona de mim, e assim como um rio, sei exatamente onde quero desaguar.
***
*"A prova de que estou recuperando a saúde mental, é que estou cada minuto mais permissiva: eu me permito mais liberdade e mais experiências. E aceito o acaso. Anseio pelo que ainda não experimentei. Maior espaço psíquico. Estou felizmente mais doida."
- Clarice Lispector -
Um comentário:
O ruim do mundo do faz de conta é que a razão não sonha tão bem quanto os instintos, e aí o coração não se prende tão inteiramente a ele como quando dormimos.
O ruim da realidade nos mostrar por uma fresta o quanto podemos nela, é ela não nos mostrar exatamente o quanto vai custar e até onde podemos.
Beijo
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