28 de junho de 2016

Aceitar por completo.

Imagem: Tumblr

Antes de ontem uma amiga e eu começamos a assistir Lúcifer. Confesso que por ter sido uma indicação do meu irmão, eu não estava lá muito empolgada, afinal nossos gostos nesse sentido são completamente diferentes... rs Mas, contrariando as minhas expectativas (o que tem acontecido frequentemente nos últimos dias já que venho sendo brindada tanto por surpresas "boas" como "ruins"), o fato é que já estou completamente apaixonada pela série e, diga-se de passagem, encantada pelo personagem principal; ou seja, o Diabo. Por ser propositadamente uma ficção sem compromisso com fatos (supostamente) históricos, a série apresenta pouca fidelidade ao mito do anjo caído narrado na Bíblia e, pra mim, é isso o que a torna interessante. 

Ontem, por exemplo, Lúcifer durante uma sessão de psicoterapia deixou aflorar toda a sua revolta por ter sido escolhido por Deus para ser o guardião do inferno: "Ele me difamou. Fez de mim um algoz! (...) Por toda a eternidade meu nome será sinônimo de depravação. Esse é o presente que meu Pai me deu! Nesse momento da série, por ser apaixonada por tudo o que envolve psicologia, dores e dramas humanos, eu já estava à mil; mas foi no desenrolar do diálogo abaixo que uma espécie de insight se fez dentro de mim e eu percebi que Lúcifer pode até ser um mito (e pra mim vai continuar sendo), mas parte da sua história (ou pelo menos a que é contada na série) expressa muito bem a nossa realidade existencial.


Dra. Linda: - O que aconteceu foi um ato de amor.
Lúcifer: - Como sabe?
Dra. Linda: - Perceba que quando os anjos caem, eles também ascendem. Tudo o que precisam fazer é aceitar por completo.
Lúcifer: - Eu não posso.
Dra. Linda: - Sim, você pode. Seja receptivo ao processo.
Lúcifer: - Você não entende. Eu não posso!
Dra. Linda: - Mas por quê?
Lúcifer: - Por que foram roubadas de mim!!!

O "foram roubadas" a que Lúcifer se refere no episódio em questão diz respeito às suas asas de anjo que ele cortou e guardou num container quando decidiu se rebelar contra as ordens de Deus, abandonar o inferno e ir morar em Los Angeles. Minha imaginação, fértil por excelência, achou logo de fazer uma relação... Asas, voo, liberdade... Não é esta última o que a maioria de nós deseja? Eu sim, ardentemente. Mas, semelhante ao que aconteceu com Lúcifer, eu perdi as minhas asas. A diferença é que eu as roubei de mim mesma quando infringi Leis que não podiam ser infringidas... Matando, roubando, ofendendo, caluniando, cometendo excessos de toda ordem na área da sexualidade e, quem sabe até tirando a minha própria vida... Não sei. 

O que eu sei realmente é que eu não estaria aqui nessa experiência carnal, presa a um corpo cheio de limitações, se não precisasse aprender algo com e por meio dele. O que eu sei, apesar de todas as dores que já experimentei até aqui, é que a oportunidade dessa presente encarnação foi, como disse a Dra. Linda, um ato de amor. O que eu sei é que a queda não é minha sina, o fundo do poço não é o meu lugar, as dores não são o meu destino. O que eu sei, e o que a série me fez relembrar, é que eu preciso aceitar por completo a minha atual e temporária condição, ser receptiva ao processo da vida material com todas as provações que ela ainda vai me trazer; porque só assim, embora eu não saiba quando, eu sei, ou melhor, eu sinto que eu vou reencontrar minhas asas. 

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