13 de agosto de 2014

Tipicamente Luíza

Sou humana, carrego sangue nas veias, portanto, também sou vulnerável como qualquer outra pessoa. Tudo bem que frieza às vezes me define muito bem, mas como diz Tom, e só pra deixar claro, "embaixo dessa neve mora um coração". Um coração que insiste em abrigar sentimentos que ganham e perdem intensidade repetidas vezes dentro de si. Um coração que vive numa instabilidade que beira a loucura em alguns momentos, mas pela qual eu tô vendo que tenho de começar a agradecer, pois o fato é que ela não é de todo ruim.

Tem dias em que é difícil levantar da cama quando acordo. Ontem mesmo foi um dia desses. Tinha um compromisso às 9h da manhã, acordei às 5h:30 e fiquei enrolando o tempo debaixo do edredom até às 8h:15. Eu podia dizer que era só a preguiça por causa do frio, mas não era não. Era desânimo mesmo por saber que teria de enfrentar mais um dia longo e igual a todos os outros. Se fosse um outro domingo, talvez eu tivesse mesmo ficado deitada até sabe Deus que horas. Mas ontem eu não podia, e fazendo um esforço gigante, levantei e me preparei pra sair.

Meu compromisso era com o grupo de adolescentes, amigos do Centro Espírita que frequento. A gente se reúne a cada quinze dias para estudarmos "O Evangelho segundo o Espiritismo". Se eu disser que bastou chegar lá e encontrar o pessoal, para todo o desânimo ir embora, vou parecer louca? Pois que assim seja, eu visto esse rótulo sem vergonha nenhuma. No lugar do sentimento que teria me prendido à cama há menos de uma hora, eu senti surgir a alegria e a vivacidade que raros momentos e poucas pessoas conseguem despertar em mim. Insano, né? Mas foi bom que tenha sido assim!

O domingo que seria longo passou rápido, o desânimo não deu mais o ar da sua graça e, apesar da pontinha de melancolia que a Lua cheia me trouxe no comecinho da noite (ela sempre me traz esse sentimento), mas uma vez eu fui dormir com o coração em relativa paz. Sei que esse não foi o último dos meus dias de instabilidade emocional, e dou graças a Deus por isso. No fim, como a Luíza de Jobim, talvez eu realmente traga um certo nevoeiro dentro do peito. Vai ver é ele que se desmancha nas tempestades de desânimo que antecedem as alegrias dos dias de sol no meu coração.


***

"...Era tão vulnerável. Odiava-se por isso? Não, odiar-se-ia mais se já fosse um tronco imutável até a morte, apenas capaz de dar frutos mas não de crescer dentro de si mesma. Desejava ainda mais: renascer sempre, cortar tudo o que aprendera, o que vira, e inaugurar-se num terreno novo onde todo pe­queno ato tivesse um significado, onde o ar fosse respirado como da primeira vez..." 
Clarice Lispector in Perto do Coração Selvagem

4 comentários:

Thais Campidelli de Freitas disse...

Eu já me senti assim e já descrevi esse sentimento num texto que se chama "Dose de coragem", acho que é isso hahaha.

O que precisamos para desembaçar esse nevoeiro que as vezes toma conta do nosso dia é a cia das pessoas que trazem cor pra nossa vida.

Fazer coisas que gostamos ao lado de quem nos faz bem é sempre um bom remédio pra isso.

E como você mesma disse, ainda bem que esse não é o teu último dia instável rs...

Pois é tendo dias assim que valorizamos a graça dos dias felizes, coloridos e de sol.

Beijos

Ps: quanto ao filme, assista sim! Eu gostei muito e já andei pensando em algumas coisas para escrever à partir dele :)

Quanto a música que eu falei, dá pra pra escutá-la aqui

http://www.youtube.com/watch?v=H2-1u8xvk54

:)

Malu disse...

Ei, Thatá!
É sempre um prazer "te ler" aqui, e como sempre, tens razão. A cia das pessoas que amamos e que sabemos nos querem bem, é, de fato, o remédio ideal para esses dias em que a vida parece sem cor e sentido. E o melhor de tudo é saber que esses mesmos dias antecedem a luz do sol nos nossos corações, ne?

Sobre a música do filme, é linda sim, e assim que eu conseguir assisti-lo, aviso você!

Obrigada pela linda presença! Beijos!

Lucas - Blog: Overture disse...

Primeiro, peço que me perdoe. Eu tenho tido dias muito, muito intensos de trabalho, e não será possível escrever sempre que desejo.
Sim, concordo com as duas. Encontrarmos com quem gostamos e nos identificamos é um bom remédio para dias de instabilidade.
A questão maior, contudo, é que instabilidades emocionais, motivacionais, psicológicas são eventos raros, em nossa vida natural. Se não são, alguma luz vermelha deve ser acesa. É verdade que as sociedades caminham para o caótico-estressante. Mas ainda não é 2014 o ano em que instabilidade seja algo que beire a loucura. Teu tema é interessante: ‘Tipicamente Luíza’. E há três enfoques no texto: 1. desânimo arrasador porque ‘era mais um dia como todos os outros’; 2. mudança brusca em alegria; 3. expectativa de que há um mal inerente a ti, mas afinal talvez ele aponte para um bem. Pus-me a pensar em que provavelmente essa somatória é o ‘tipicamente Luíza’ do título. E me pus a pensar mais.
Beijossssssssssss

Malu disse...

Oi, Lucas!

A correria se fez por aqui também nessas últimas semanas, então, nada tenho a perdoar, viu? Fica sempre a vontade para aparecer como e quando puder! :)

Sobre o seu comentário, confesso que li repetidas vezes o trecho em que vc diz "que instabilidades emocionais, motivacionais, psicológicas são eventos raros, em nossa vida natural". Talvez você esteja certo, mas talvez também eu seja uma exceção, não sei ainda. O fato é que você chegou ao "x" da questão quando percebeu afinal que esse modo instável de ser é o que define o "tipicamente Luíza".

Seja sempre bem vindo! :) Beijos!