15 de maio de 2014

Prazer, eu!

Certa vez atendi o telefone, era uma daquelas ligações de telemarketing. A moça perguntou com quem estava falando e, quando respondi, ela logo pediu pra falar com um dos meus pais. Nessa hora eu já comecei a conter o riso porque sabia exatamente o que ela estava pensando. Quando eu disse que meus pais não se encontravam, imediatamente ela pediu pra falar com um adulto responsável. Como estava sozinha em casa, rindo, eu esclareci minha maioridade, e então quem começou a conter o riso foi ela, pois teve que começar com o "senhora Maria Luíza" pra lá, "senhora Maria Luíza" pra cá.

O fato é que se eu fosse dada a grandes crises de identidade, por certo eu já teria entrado numa bela paranoia há tempos! Menina? Mulher? Que bicho humano sou eu afinal?

Por muito tempo eu achei que fosse a minha aparência, aliada ao meu comportamento, o que determinava o modo como as pessoas me tratam. Observando o tempo passar e as coisas não mudarem em relação às minhas relações, teve um momento em que cheguei a pensar que eu mesma me infantilizava diante do mundo, fazendo com que a maioria daqueles que convivem comigo continuassem a me ver e, às vezes me tratar como uma criança. Sou baixinha, né? Meu corpo passa longe da imagem de um corpo de uma mulher de 28 anos. E, não bastasse isso, tenho um lado excessivamente tímido, o que, reconheço, me faz agir de modo realmente infantil em certas situações. 

O que eu vim descobrir depois foi que se a visão que tenho a meu respeito pode ser distorcida, tanto por mim (quando tomo por base a minha timidez), quanto pelo modo como os outros me enxergam, o olhar destes também pode NÃO representar a minha verdade, ou no caso, o quem eu sou na realidade. Entende o que quero dizer? Penso que nesse momento é muita pretensão minha querer chegar ao "x" dessa questão, querer descobrir quem é de fato essa pessoa que vos escreve. Por outro lado, se por ora é improvável que obtenha essa resposta, você há de concordar que pelo menos tenho o direito de mostrar - já que isso eu sei - quem eu não sou. Certo?

Bom, não sou mais uma menininha. A verdade é que apesar de estar presa nesse corpo, minha mente permaneceu livre. Se meu corpo estagnou nos meus 12 ou 13 anos, meus desejos, sonhos, vontades, que não sofreram esse limite, passaram a ter conotações que não condizem mais com a ingenuidade e a vontade infantil. Posso ser inexperiente, mas não boba. Sou tímida, mas não "santa". Aliás, "santinha" é um rótulo que vez e outra insistem em ligar a mim, o que há alguns anos me deixava realmente irritada,  e hoje só me faz lembrar do bordão em voga no momento - "sabe de nada, inocente!"...rs É muito simples você julgar a mim ou qualquer pessoa pela aparência, né? Mas é nesse julgamento que a gente se engana, e se engana feio.

Nesse contexto, se você convive comigo, de perto ou de longe, no real ou no virtual, se eu puder lhe dizer algo a meu respeito é: não se iluda, não se deixe enganar pela minha aparência delicada, nem pela minha voz infantil. Eu não gosto de falar palavrões, mas conheço muitos. Eu tento ser melhor a cada dia, mas erro a cada hora. Eu não sou de brigar, mas por favor, não pise no meu calo. Sou menina? Sim. Sou mulher, também. Quanto ao mais, só posso lhe dizer que sei que eu não sou o que penso que sou, e não sou mais quem eu fui; mas, sei muito bem quem e como desejo ser.

Palavras repetidas, mas que parecem adequadas para finalizar: sou alguém em construção. Sou como uma casa que passa por reformas, um rascunho de velhos escritos que precisam ser passados a limpo. Posso não estar bem certa do que sou, nem do que sei. Mas, por enquanto, tento aceitar que essa sou eu.


"(...) Tenho sonhos adolescentes
Mas as costas doem
Sou jovem pra ser velha
E velha pra ser jovem
Tenho discos de 87 e de 2009
Sou jovem pra ser velha
E velha pra ser jovem (...)" - Sandy Leah


Um comentário:

"A Penseira" disse...

Essa música é perfeita e esse texto também!
Oi Malu!
Comecei com o elogio antes do cumprimento porque não teve como!
Esses dias eu entrei nessa crise novamente (essa do menina-mulher, crescer-não crescer, etc e tal) e fiquei repensando minhas atitudes, meus pensamentos, meus apegos e desapegos, minhas birras e vontades, meus desejos e necessidades... Fiquei me perguntando se eu é que sou infantil; se é minha a culpa de ter sido criada num mundo cor de rosa (existe um culpado para isso?); se eu errei, onde eu errei e porque errei e a verdade é que a gente vira e vira e volta para o mesmo lugar.
Não existe uma reposta pronta para essa nossa questão. E não existe um "Manual das Leis de Comportamento para Mulheres de Mais de 20 anos". Cada um é do seu jeito, carrega suas dores e delícias e tem seu modo de reagir e conviver com elas.
No fim, somos todos seres em construção, cada um com seus defeitos e qualidades, todos em busca de aprendizado e aperfeiçoamento.
Ameiii demais seu texto Malu!
Ps: Quanto ao rótulo de santinha - eu que tanto o tive e ainda o tenho - posso dizer seguramente: Sabe de nada, inocente meeesssmoooo!
Bjos gêmea! E parabéns pela bonita reflexão.