Você não me conhece. Pelo que sei você não se deu nem ao trabalho de olhar para o neném que tinha a sua frente, de exercer dignamente a profissão que escolhera, ou no mínimo, de agir com o coração diante daquela mãe que buscara o seu conhecimento como o sedento procura água no deserto. Não. Você não parou para enxergar ali, naquele momento, além da minha aparente fragilidade. Da altura do seu "pedestal" você disse para a minha mãe não se importar tanto comigo, que eu seria o "maior abacaxi" da vida dela, e não bastasse toda essa "delicadeza", você nos deu ainda a sua sentença - um mês, no máximo - quando eu contava apenas 18 dias de vida, lembra? Provavelmente não, né, ao contrário de mim que sempre lembro de você nessa época do ano. Quer saber porquê? É que sua previsão falhou e você errou feio, doutor!
Daqui a poucos dias faço 29 anos, superando todas as expectativas, as suas e de mais alguns outros que cruzaram a minha vida ao longo de todo esse tempo. 29 anos vividos ao meu modo, com o meu jeito torto de ser, mas muito bem vividos! De criança peralta à mulher sonhadora. De aluna aplicada àquela que fazia de tudo pra garantir um lugar no fundão da sala de aula...rs. Dentro das minhas possibilidades, esses 29 anos foram os melhores que eu poderia ter tido, e tenho certeza que, naquele dia, no seu consultório, nem passou pela sua cabeça que num futuro não tão distante eu escreveria sobre você e sobre a sua atitude que, não me entenda mal, não me traz nenhum outro sentimento que não seja de diversão! rs Acho engraçado saber que, graças a Deus, nós conseguimos superar sua pretensão! rs
Daqui a poucos dias faço 29 anos, superando todas as expectativas, as suas e de mais alguns outros que cruzaram a minha vida ao longo de todo esse tempo. 29 anos vividos ao meu modo, com o meu jeito torto de ser, mas muito bem vividos! De criança peralta à mulher sonhadora. De aluna aplicada àquela que fazia de tudo pra garantir um lugar no fundão da sala de aula...rs. Dentro das minhas possibilidades, esses 29 anos foram os melhores que eu poderia ter tido, e tenho certeza que, naquele dia, no seu consultório, nem passou pela sua cabeça que num futuro não tão distante eu escreveria sobre você e sobre a sua atitude que, não me entenda mal, não me traz nenhum outro sentimento que não seja de diversão! rs Acho engraçado saber que, graças a Deus, nós conseguimos superar sua pretensão! rs
Há uns 5 dias reencontrei um amigo dos tempos de escola, e nossa conversa como se podia esperar, foi basicamente sobre aquele período. Com saudade relembramos momentos e pessoas; comparamos os sentimentos de um passado que ainda nos parece logo ali, com os sentimentos de um presente que nos sobrecarrega de responsabilidades. Rindo da nossa igenuidade adolescente, percebemos o paradoxo da vida que parece em constante guerra com o tempo: se na sexta série queríamos crescer, agora - ele com 30 anos e eu prestes a fazer 29 - confessávamos que não acharíamos de todo ruim uma viagem de volta ao passado, àqueles dias em que nossas únicas preocupações eram as provas do colégio e - no caso dele - acordar cedo pra não perder o futebol com os amigos.
Sabe, doutor, relembrando tudo o que vivi até aqui, não vou mentir e dizer que tudo foi flores. Não. Em alguns momentos a sensação era de uma urgência, e o único pedido era pra que a minha chama apagasse logo. Uma mente inquieta aprisionada num corpo limitado acaba, vez e outra, tornando as coisas mais complicadas do que realmente são, e é por isso que reconheço que a maioria das dores que experimentei foram, se não causadas, pelo menos intensificadas por mim. Dos doze aos dezesseis anos tive a minha primeira "idade das trevas" porque foi quando percebi que a vida me traçava um caminho totalmente diferente daqueles que seriam percorridos pelas minhas irmãs e amigas. Aceitar essa constatação não foi fácil! Se antes me sentia igual, posso dizer que essa época marcou o "cair da ficha". As diferenças, antes inexistentes ou imperceptiveis para o meu coração e olhar infantil, passaram então a se fazer presentes e visíveis em tudo ao meu redor, principalmente no olhar de alguns e no meu próprio espelho.
Foi então que se deu o que nem você e nem eu esperávamos. Deus me colocou no colo quando aos dezesseis anos me aproximou da doutrina espírita. Espere. Não vou começar com o papo de que ela mudou minha vida, me salvou e de que desde então sou feliz e blá blá blá! Não é por aí! O que posso dizer é que tê-la conhecido nessa época, ter tido o contato com o esclarecimento que ela proporciona, além de ter trazido um pouco de serenidade e luz para aqueles meus dias até então escuros, foi uma ação - hoje eu sei, eu sinto - cuidadosa de Deus para comigo; foi, eu não tenho dúvida nenhuma, uma forma dEle me fortalecer e preparar para as dificuldades que teria de enfrentar dali para frente! Se antes eu não entendia o porquê da minha vida, com a doutrina passei a compreender não só a razão da condição física em que nasci, como também dos sentimentos e conflitos que trago no coração. Foi um tempo relativamente de trégua aqueles cinco anos. Já havia começado a faculdade, a vida parecia ter entrado no eixo e assim permaneceu até... Bom, até eu dar de cara com o (in)esperado nos meus 21 anos.
O que eu posso te falar a respeito do que vivi nessa época, doutor? Como te falarei sobre coisas que permanecem guardadas até hoje? Por ser ainda complicado soltar o verbo a respeito, me darei o direito de deixá-las exatamente assim, guardadas. Caladas. Sei que talvez seja essa a causa da dor, já que o que é sufocado exige muito esforço e todo esforço cansa, machuca, fere. E dói! Mas já fazem oito anos desde que a minha segunda "idade das trevas" começou, e apesar disso eu estou seguindo em frente, tentando aceitar o cálice que ela me trouxe, pois já sei que ele também tem o seu "porquê" e, principalmente, o seu "pra quê"; reconheço que apesar de amargo, de engasgar às vezes, não existe outro jeito de lidar com ele, a não ser bebendo-o até a última gota...
Hoje, ainda que seguindo com o coração aos trancos e barrancos, não perco de vista a grandeza e misericórdia da Vida que sempre trouxe para perto de mim algumas pessoas cuja presença me foi e/ou é fundamental. Como esquecer aqueles dias no hospital? E, mais, como não lembrar a forma providencial como tudo se arranjou e possibilitou minha volta para casa, quando mais uma vez fui dada como um "caso perdido"!? "Há mais mistérios entre o céu e a terra, do que sonha a vossa vã filosofia", disse Shakespeare, e desses celestes mistérios a minha vida está cheia. Assim, entre as ditosas e desditosas experiências desses 29 anos, eu percebo que só tenho a agradecer a Deus a bênção de estar aqui. Agradecer pelos anjos revestidos de familiares e amigos; pelos amigos que fazem as vezes de anjos. Não é esse o grande barato da vida? O encontro com aqueles que somam conosco; e, que, percorrendo o mesmo caminho que nós, nos ajudam a crescer ao mesmo tempo em que crescem junto com a gente!?
Sem mais a acrescentar, eu só quero te dizer que você falhou, e que torço para que eu tenha sido a sua primeira e última previsão. Torço para que, depois daquele dia, você tenha descoberto o verdadeiro significado e objetivo da profissão que você escolheu abraçar. Sei que naquele dia você ouviu coisas que não deve ter gostado nem um pouco, mas há de convir doutor, que nenhuma mãe escuta calada o que você falou pra minha. E, como diz uma das lições que aprendi muito cedo em casa, "quem diz o que quer, acaba por ouvir o que não quer", concorda? Assim, deixemos de lado as palavras, o passado e as lembranças, ok? Sigamos em frente porque os 30 anos já me batem à porta, e melhor que esse passado, eu quero é o meu futuro!
4 comentários:
Ehh Maluzinha, me emocionei agora, meu! Fico feliz com a falha desse medico... Que vc hoje esta ai, toda linda e maravilhossa, independente do corpo material que habita!!! Te adoro <3
Aninha, viver o que vier, ne? =)
Obrigada pelo carinho de sempre! <3
Assim como a Aninha, eu também fico feliz com a falha desse médico. E cada vez que leio textos sobre sua vida, fico muito, muito, feliz em ver o agir de Deus na sua vida. Pode crer que você ainda vai viver muito e testemunhar sobre o milagre de Deus sobre sua vida. É uma honra ter você me meu caminho, mesmo que de uma forma diferente, mesmo que "distante". E não posso deixar de dizer: faria tudo pra esse médico ler cada palavrinha deste seu texto!
Beijos, Malu!
Que Deus continue abençoando sua vida e surpreendendo cada dia mais, dia após dia!
Amém, Nathy! Já te falei várias vezes da alegria que sua amizade me traz, ne? Obrigada por tudo! Bjs!
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