30 de janeiro de 2016

Porque a gente pode tudo


Google Imagem - Cena do filme Simplesmente Acontece

O acelerado do meu coração me faz pensar que ele não vai suportar. Parece que a ansiedade acumulada ao longo do último ano resolveu fluir por cada célula do meu corpo, tornando meu sangue mais denso, dificultando assim o trabalho desse moço que, agora, parece uma bomba prestes a explodir dentro do meu peito. "Calma!" - eu repito para mim mesma - "Você não vai transformar esse momento de extrema alegria num funeral, né? Segura as pontas, faltam só mais alguns minutos...". São mais ou menos essas as ordens mentais que eu escuto de mim mesma enquanto não desvio o olhar do relógio e fico a observar o vai e vem de pessoas no saguão do aeroporto. Isso me distrai por alguns instantes, o que é na verdade uma bênção porque sinto o olhar constante da minha mãe sobre mim. Não sei se é pelo fato das minhas mãos que estão praticamente esmagando uma a outra ou se é pelo inusitado de toda essa situação. A verdade, todavia, é que por qualquer que seja o motivo, tentar descobri-lo agora não tem importância nenhuma pra mim. Eu só desejo que esse bendito voo chegue logo.

Olho para os letreiros digitais do painel com a lista dos voos que irão chegar e percebo que provavelmente em menos de uma hora toda essa agonia terá tido o seu fim. Assim, como já fiz ene vezes desde que mãe e eu sentamos aqui, num gesto totalmente mecânico pego meu celular dentro da bolsa e deslizo o dedo sobre a tela. No papel de parede vejo a imagem de uma cena do filme Simplesmente Acontece, imagem que por sinal pareceria uma foto do momento que eu estou prestes a vivenciar, não fosse o fato de que no filme ela retrata uma despedida, e isso é justamente o contrário do que vai acontecer. Olho a tela por alguns segundos e consigo sentir meu coração encher de um dos sentimentos mais vivos que conheço. Sinto meus lábios se abrirem num sorriso bobo e o vermelho fazer minhas bochechas arderem, porque eu sei que mãe não tira os olhos de mim desde que a gente chegou no aeroporto. Mesmo assim, abro o whatsapp e localizo nossa conversa. "Até daqui a pouco, minha pequena. Eu tô sempre com vc e não demora vou te ter nos meus braços. Te amo." "Vem com Deus, meu anjo. Façam uma boa viagem. Você é o meu melhor presente. NEOQAV." A marcação apontava 9h no aplicativo, horário exato em que ele precisou desligar o celular para entrar no avião. Agora eram quase 17h, o que significava que logo logo as palavras dele se tornariam reais. Ele me teria em seus braços e eu finalmente encontraria a paz.

Um ano, ou quase um ano na verdade. Foi esse tempo o suficiente para fazer minha vida dar uns mil giros de 360°. E não preciso dizer que isso foi a melhor coisa que já me aconteceu, né? Se alguém me dissesse ano passado que aquele moço que conheci no dia do amigo seria hoje o meu namorado, eu provavelmente daria uma risada encabulada e trataria de logo mudar o assunto. Naquela época tudo estava tão confuso, doído mesmo, e o que eu não queria de jeito nenhum era matéria prima para uma nova ilusão do meu coração. Mas o destino, a Vida ou sei lá o quê tem o seu próprio jeito de agir, e de verdade eu acredito que foi a força deles que preparou a gente para tudo o que veio a acontecer desde aquela noite do dia 20 de julho de 2015 pra cá. Sigo passando o dedo sobre a tela do celular, relendo alguns trechos das nossas conversas e revivo a lembrança de cada momento, que volta com tudo dentro de mim. Me vejo praticamente rejeitando-o no início. Eu estava assustada, ele parecia legal, mas eu tinha sido marcada por uma dura lição. Nossa conversa fluía naturalmente e quando chegou a hora da despedida, o medo cedeu um pouco de espaço para a curiosidade, para a vontade de conhecer aquele rapaz cujas experiências se assemelhavam tanto com as minhas. E foi assim que de um chat e de uma noite sem sono surgiu a nossa amizade.

Lembro de tudo... Lembro de como a confiança surgiu naturalmente depois que o receio inicial passou. Lembro que as confidências e desabafos foram acontecendo de forma espontânea para nós dois. Lembro que no meio de toda a dor que eu estava vivenciando naquele momento, a mão que ele me estendeu foi meio que a força fundamental que me ajudou a sair do poço de ilusão em que eu me encontrava. Lembro da promessa que fizemos de sermos sempre e somente amigos. Lembro de sentir em mim cada dor que ele me revelava e do quanto eu quis - em muitos momentos - deixá-lo descansar a cabeça no meu colo enquanto afagava seus cabelos até vê-lo adormecer o sono das almas que merecem a paz. Lembro da alegria que senti na primeira vez que o ouvi num áudio e do quanto me senti a vontade para respondê-lo - também por áudio - minutos depois. Lembro dos momentos em que a distância parecia querer se fazer presente entre a gente e do quanto isso passou a me assustar. Lembro de cada sentimento, de cada alegria... 

Continuo com o olhar voltado para o celular, e agora a sensação é de que estou no meu quarto, lendo as frases que me revelam um sonho que ele teve comigo. Nem consigo lembrar desse dia sem sentir novamente meu coração acelerar. Alguma coisa tinha mudado, eu vinha percebendo isso há algum tempo, mas suspeitava e mesmo temia que tal mudança tivesse sido somente em mim. É que o tempo -  senhor de todas as coisas - tinha agido ao meu favor, e juntamente com a amizade dele, tinha feito sarar a ferida no meu coração. Era dezembro já, dia 5 para ser mais exata. No sonho que ele me contava em frases objetivas, a gente aparecia não mais como simples amigos. Mais que isso, no sonho ele dizia que lutaria por mim, por nós, abraçava-me forte e beijava-me os lábios tentando lutar contra a minha mãe... Eu ri quando ele me contou essa parte porque eu sabia que minha mãe seria a última pessoa do mundo a tentar atrapalhar a minha felicidade. E, embora não tenha dito nada naquele dia para ele, eu já vinha há algum tempo pedindo ao universo que se eu merecesse ser feliz nessa vida, que por favor, a minha felicidade viesse com ele. Lembro que três dias depois a gente conversou e deixamos que nossos sentimentos um pelo outro avançassem algumas casas dentro dos nossos corações.

Sinto o ar sair apressado de dentro de mim. Só então percebo que eu estava perdida em lembranças e quase que esquecendo de respirar. Resolvo guardar novamente o celular porque já não preciso reler nossas conversas para lembrar de tudo o que a gente passou até aqui. Juntos nós lutamos contra nossos medos e traumas mais profundos. Com ele ao meu lado eu vi a Malu insegura e medrosa perder o espaço, a voz e a vez para a Malu confiante, corajosa e disposta a tudo para conseguir ser e fazer feliz. Ao lado dele, apesar dos milhares de quilômetros que nos separavam, eu fui ombro, fui colo, fui abraço... Juntos nós superamos os males que a distancia poderiam causar, nós aprendemos a viver, conversar, ceder, sentir, compreender, amar... Sim, em quase um ano de conversas virtuais que alimentaram sentimentos reais, junto nós vencemos. Vencemos sobretudo a nós mesmos. E foi essa vitória que possibilitou esse dia hoje, que nos fez ter certeza da verdade que existe no outro e, principalmente, que nos deu a força e coragem necessária para transformarmos em realidade a vida que construimos juntos com os  nossos sonhos.

Ainda perdida em lembranças, sinto minha mãe tocar em meu braço e me chamar a atenção para voz que anuncia a chegada do voo tão esperado. Meu coração dispara de uma forma que eu jamais imaginei ser possível. De mãos dadas seguimos para bem próximo do aglomerado que começa a se formar em frente aos portões de desembarque. Racionalmente eu sei que os minutos necessários para que ele e seu irmão peguem suas bagagens na esteira serão poucos, mas a ansiedade não sabe calcular, e o tempo parece ter parado enquanto minha mãe, outras quase duas dezenas de pessoas e eu esperamos a chegada dos nossos entes queridos. De repente vejo aqueles dois rapazes vindo em direção ao portão onde a gente se encontra, percebo que eles caminham devagar, em parte por causa do carrinho com a bagagem, em parte porque parecem procurar alguém. Pisco os olhos numa tentativa de enxergar melhor (sim, eu me arrependo de não ter vindo de óculos) e é nessa hora que um pequeno grito de "é ele" sai da minha boca acompanhado de um incontrolável riso. Noto que minha voz foi mais audível do que eu desejava, porque sinto que todas as pessoas ao meu redor se voltam pra mim. E é nesse momento que os nossos olhares se encontram, se reconhecem... A distância que nos separa agora já não chega a cinco metros, o que me dá segurança necessária para me desvencilhar da minha mãe e "correr" ao encontro do meu anjo, do nosso tão esperado abraço, da nossa tão desejada paz...

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